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distância: uma seleção de vídeos e filmes da Pinacoteca

Em quarentena, e por isso temporariamente fechada à visitação, a Pinacoteca de São Paulo reafirma a importância que o encontro com os públicos tem na sua história e na sua missão. Instituições culturais são experiências coletivas, que envolvem aproximação e troca entre pessoas. Enquanto isso ainda não pode voltar a acontecer presencialmente, o museu entende que outras situações de encontro com sua programação e seu acervo podem ocorrer aqui no site e nas redes sociais.

Hoje lançamos Distância, uma exposição online com cinco obras audiovisuais da coleção da Pinacoteca. Os trabalhos de Cao Guimarães, Dalton Paula, Letícia Parente, Marcellvs L. e Sara Ramo poderão ser vistos online até o fim do período de isolamento. Originalmente pensados para salas de exibição em museus e galerias, eles ganham uma versão adaptada para o ambiente virtual, no qual, ao invés de espaço físico, ocupam janelas de visualização e perdem, consequentemente, os atributos instalativos.

Apesar de distintos em tantos aspectos (históricos, geográficos, técnicos), esses filmes e vídeos têm em comum o ponto de vista de sujeitos por alguma razão apartados de uma sociabilidade imediata. Longe o suficiente para não terem acesso, mas minimamente perto para observarem e comentarem essa condição, esses personagens (ora os próprios artistas, ora terceiros; ora reais, ora ficcionais) evocam o espectador a sentir um pouco do que eles sentem: a incerteza da espera, a força silenciosa da resiliência, o estado de busca diante de ciclos que se repetem. Os efeitos da distância comparecem nas imagens e as extrapolam. Terminam sugerindo relações possíveis com as nossas realidades, ainda mais agora que precisamos estar todos distantes.

Veja os trabalhos a seguir, com sequência e comentários propostos por Ana Maria Maia, curadora da Pinacoteca.

Cao  Guimarães (Belo Horizonte, 1965)
Da janela do meu quarto / From the Window of My Room, 2002
Filme Super-8. Estéreo.
Duração: 5’10”
Trilha sonora: O Grivo
Doação dos Patronos da Arte Contemporânea da Pinacoteca do Estado de São Paulo 2015, por intermédio da Associação Pinacoteca Arte e Cultura – APAC, 2017

 

 

Marcellvs L (Belo Horizonte, 1980. Vive entre Berlim, Alemanha e Seyðisfjörður, Islândia)
9493, 2011
Videoinstalação com vídeo digital. Estéreo. Duração:  11’16”
Doação do Iguatemi São Paulo, por intermédio da Associação Pinacoteca Arte e Cultura – APAC, 2019

 

Da janela do meu quarto (2002), de Cao Guimarães, e 9493 (2011), de Marcellvs L., são as duas primeiras obras da mostra. Ambas giram em torno de situações de voyeurismo, na qual alguém admira discretamente os movimentos de outra pessoa. Alguém espia em cena e nós, espectadores, os espiamos, prolongando a espreita para o entorno da tela. De um primeiro andar, com sua câmera Super-8, Cao filma duas crianças na rua em um dia de chuva. Em frente a uma tenda de acampamento montada em meio a uma tempestade de vento, Marcellvs captura a intimidade de um menino concentrado em seu jogo de videogame, apesar da tormenta.

Sem que sejam vistos, os artistas se posicionam em lugares de passagem, que não separam, mas justamente unem o dentro ao fora, e vice-versa. Com suas perspectivas, aprendemos a deixar as ambiguidades agirem, mesmo quando se apresentam aparentes limites. Desfazemos o julgamento que distingue briga e comunhão na brincadeira das crianças. Entendemos que as conexões tecnológicas permeiam a solidão do menino.

Pouco a pouco, ganhamos repertório para reconfigurar noções de público e privado a partir desses dois trabalhos. Isso também acontece devido à provocação de Sara Ramo em A banda dos sete (2010), que dá sequência à mostra.

 

Sara Ramo (Madri, 1975. Vive em São Paulo)
A banda dos sete, 2010
Vídeo digital. Estéreo.
Trilha sonora: Ivan Canteli.
Duração: 21’29”
Doação dos Patronos da Arte Contemporânea da Pinacoteca do Estado de São Paulo 2013, por intermédio da Associação Pinacoteca Arte e Cultura – APAC, 2014

Para tudo o que se exibe, há sempre o que se esconde. O muro central da ficção de Sara Ramo alimenta a metáfora sobre processos invisíveis na criação de narrativas e da própria linguagem. Ao redor desse elemento construtivo,  um fanfarra de sete músicos toca perfilada, cumprindo um movimento repetitivo e pelo que parece contínuo. Sua beleza e melancolia justificam por si só a dramaturgia, mas encobrem um enigma a ser desvendado por olhares (ou ouvidos) atentos. O fato é que, a cada volta, o arranjo musical se modifica. Como na coxia do teatro, nesse plano sequência são necessários apenas alguns instantes atrás do muro para que instrumentos ganhem ou percam evidência, soem ou silenciem.

Não vemos, apenas subentendemos, os agentes e processos dessas mudanças. Sua opacidade, no entanto, exerce um efeito sobre a imaginação. Frente à distância imposta, nos resta seguir fabulando histórias ou, antes disso, aguçar o senso crítico e investigativo para suspeitar de todo discurso que se apresenta de maneira absoluta e aparentemente inquestionável.

Leticia Parente (Salvador, 1930 – Rio de Janeiro, 1991)
Tarefa I, 1982
Vídeo.
Duração: 1’56”
Doação dos Patronos da Arte Contemporânea da Pinacoteca do Estado de São Paulo 2017, por intermédio da Associação Pinacoteca Arte e Cultura – APAC, 2018

Dalton Paula (Brasília, 1982. Vive em Goiânia)
O batedor de bolsa, 2011
Vídeo digital para dois canais.
Duração: 1’30”
Doação de Carolina Holzer – em processo
A ideia de distância perpassa essa mostra a princípio como sinônimo de localização espacial, que organiza pessoas e situações entre si. Com esses dois últimos vídeos, o sentido do termo é deslocado do campo afetivo e adentra o terreno das construções sociais, sobre as quais incidem marcadores de gênero, classe e raça bastante evidentes. É interessante perceber como artistas brasileiros de diferentes gerações se reportam a essas construções de modo a confrontá-las em suas obras.

Uma das pioneiras da videoarte no país, Letícia Parente costumava realizar performances diante de uma câmera portátil para comentar situações do seu cotidiano caseiro de mulher branca e de classe média. Em Tarefa I, uma empregada doméstica passa a roupa da artista sem tirá-la do corpo. A branquitude estendida sobre a tábua torna-se suporte para o trabalho de uma mulher negra. O movimento inusitado nos convoca a acusar estranheza também naquilo que a história colonial naturalizou, o legado de servidão e precariedade da população afrodescendente.

A partir de motivação semelhante, Dalton Paula problematiza outro estereótipo. Em Batedor de bolsa, coloca-se em seu lugar de fala enquanto artista negro e performa um gesto de resposta à expressão que dá título ao trabalho. São assim chamados aqueles que cometem pequenos furtos sem que sejam percebidos, geralmente jovens racializados do sexo masculino, o que revela uma associação preconceituosa entre um perfil identitário e a criminalidade. No vídeo, o artista assume esse papel e, ao perseguir uma bolsa feminina com cassetete na mão e olhos vendados, como num jogo de cabra cega, usa literalidade e humor no intuito de recriar um imaginário.

Das cinco obras aqui reunidas, apenas essas duas resultam no toque efetivo de elementos da cena pelos artistas. Em um contexto de pandemia, cujo combate, junto a uma série de medidas, envolve o distanciamento social, esse detalhe chama atenção. Vale lembrar, contudo, que acusar sua presença é fruto de uma leitura extemporânea, uma vez que todos os trabalhos são anteriores à coronacrise e, portanto, nem pretendem nem poderiam querer comentá-la.

De todo modo, ao trazerem à tona alguns aspectos históricos e culturais persistentes, essas obras são uma poderosa ignição para refletirmos sobre o caráter parcial da ideia de distância enquanto medida física mas, sobretudo, enquanto direito humano. Em uma sociedade patrimonialista, que termina por equiparar privacidade a propriedade, tornam-se seletivas as possibilidades de reclusão. Sempre há aqueles que podem exercer o privilégio de se isolarem (#fiqueemcasa) e outros que, por condição e ofício, não podem. Entre eles, eis a real distância.