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Antonio Henrique Amaral

07 dez 2013
23 fev 2014

A Pinacoteca do Estado de São Paulo, instituição da Secretaria Estadual de Cultura, apresenta a exposição retrospectiva de Antonio Henrique Amaral, um dos principais artistas brasileiros do século XX. Com cerca de 160 trabalhos, sendo 80 telas e 80 obras sobre papel, a mostra oferece ao público um panorama da carreira do artista, desde seus primeiros desenhos e gravuras das décadas de 1950 e 1960, passando por uma sucessão de fases em que a pintura se torna central no trabalho do artista.

Com a série Brasiliana, Amaral começa a explorar a “banana” como tema, iconografia que atinge seu ponto alto com os sombrios quadros da série Campos de batalha, uma alegoria dos tempos da repressão política no Brasil, os anos de 1970. Surgem depois os Bambus e Expansões, quando a composição se fragmenta até atingir a grande liberdade pictórica dos anos de 1980. A década de 1990 vem marcada pela ambiguidade dos Torsos e pela dramática série de pinturas intitulada Anima & mania. A exposição se encerra com o retorno do artista ao desenhos e à aquarela, sua produção mais recente.

Antonio Henrique desenvolveu sua carreira a partir de São Paulo e viveu quase dez anos em Nova Iorque – de 1971 até 1981 -, quando retornou definitivamente ao Brasil. Foi na grande metrópole norte-americana, então centro mundial das artes, que se firmou como pintor, vivenciando a expansão da pop-art e do hiperrealismo, movimentos com o quais dialoga, e usufruindo da diversidade do ambiente cultural frequentado, na época, por artistas latino-americanos de sua geração.

A mostra que ocupará sete salas apresentará uma seleção antológica de obras do artista, a exemplo das relacionadas abaixo, representativa das diferentes fases de sua extensa carreira.

Consensus,1967: Como muitos artistas de sua geração, Antonio Henrique não ficou indiferente ao abalo da vida nacional ocorrido em 1964. Para cativar o público, não deixou de acrescentar um toque de humor à crítica aos generais que governavam o país. Era um modo pop de fazer arte, porém diverso da pop art norte-americana, atrelada ao universo da produção e do consumo massificados.

Boa vizinhança, 1968: Amaral começou a pintar as bananas em 1968, estimulado pela encenação da peça O rei da vela de Oswald de Andrade, no Teatro Oficina. O tema da banana, pela recorrência e pela aceitação que obteve, converteu-se numa marca de identificação do artista. A propósito, Frederico Moraes diria: “O primeiro ícone dessa fase bananas é quase um cartaz político: nele vemos a banana ligando as bandeiras do Brasil e Estados Unidos, nosso progr/ESSO cortado pela ação das multinacionais.”

Campos de batalha, 1973: Na década de 1970, a pintura de Antonio Henrique chegou à maturidade. Na série “Campos de batalha” (“Battlefields”), ele conseguiu notável aperfeiçoamento técnico.
Pintava a óleo, usando poucos instrumentos: duas espátulas, alguns pincéis, papel toalha. E, como suporte, telas de linho ou algodão que ele mesmo esticava. Planejava a produção de seus quadros nos menores detalhes. Começava compondo a cena, à maneira de uma natureza-morta, reunindo bananas e elementos como pratos, facas, garfos e cordas, para depois registrá-los por meio do desenho ou da fotografia. Por meio de aproximações crescentes, acabava por evidenciar a crueldade dessas encenações em que objetos banais são convertidos em instrumentos de tortura.

Bambu, água e terra, 1978: Em meados da década de 1970, Amaral decidiu que era hora de mudar de temática. Começou a recusar convites para expor as bananas. No contato renovado com o mundo tropical, pintou as séries “Casas de Macunaíma” e “Bambus”, ora desenhando direto da paisagem, ora fotografando os vegetais para depois passá-los para a tela.

Polípticos, 1979: Os Polípticos (dois, nesta exposição) formam um conjunto de seis painéis em grande formato – o mais extenso deles com quase cinco metros de comprimento – cada um resultando do acoplamento de várias telas pintadas sem prévio conhecimento da configuração final da obra.

Armas, Na denúncia dos desastres ambientais frequentes no Brasil tais como queimadas, desmatamento e poluição atmosférica, Amaral usou signos facilmente identificáveis – labareda, tronco, faca, serra, nuvem, chaminés, fumaça, osso, corda –, que vieram se somar a outros já recorrentes. A repetição obsessiva dessas “formas-fetiches” (Ferreira Gullar) acabou por estabelecer um repertório imagético particular do artista, passível de ressignificação a cada fase ou contexto específico.

2002 – A sequência, 2002: Na entrada do novo milênio, encontramos a pintura de Amaral tão livre e solta quanto seus desenhos. O gesto espontâneo, que outrora irrompeu como instrumento desestabilizador da forma, da técnica e dos conteúdos, deixa agora de ser um impulso transgressor para se afirmar como prática de uma linguagem outra. No espaço pictórico, não há contenção, mas fluxo. Tudo se passa num campo de forças em expansão ou contração, em turbilhão, em incessante movimento.

Sobre o artista

Antonio Henrique Abreu Amaral (São Paulo SP 1935). Pintor, gravador e desenhista. Inicia sua formação artística na Escola do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – Masp, com Sambonet (1924 – 1995), em 1952. Em 1956, estuda gravura com Lívio Abramo (1903 – 1992) no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP. Em 1958, viaja para a Argentina e o Chile, onde realiza exposições e entra em contato com Pablo Neruda (1904 – 1973). Viaja para os Estados Unidos em 1959, estudando gravura no Pratt Graphics Center, em Nova York. Voltando ao Brasil em 1960, trabalha como assistente na Galeria Bonino, no Rio de Janeiro, e conhece Ivan Serpa (1923 – 1973), Candido Portinari (1903 – 1962), Antonio Bandeira (1922 – 1967), Djanira (1914 – 1979) e Oswaldo Goeldi (1895 – 1961). Paralelamente à carreira artística, atua como redator publicitário. No início da carreira realiza desenhos e gravuras que se aproximam do surrealismo. A partir da metade da década de 1960, sua produção passa a incorporar a temática social, elementos da gravura popular e da cultura de massa, aproximando-se também da arte pop. Em 1967, lança o álbum de xilogravuras coloridas O Meu e o Seu, com apresentação e texto de Ferreira Gullar (1930) e capa de Rubens Martins, em que apresenta uma crítica ao autoritarismo vigente no país. Passa a dedicar-se predominantemente à pintura. Recebe em 1971 o prêmio viagem ao exterior do Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro e viaja para Nova York. Retorna ao Brasil em 1981.