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Arpilleras da resistência política chilena

30 jul 2011
30 nov 2011

O Memorial da Resistência de São Paulo apresenta a exposição Arpilleras da resistência política chilena, com 28 trabalhos em tecido, realizados nos anos 1973 e 1980, além de documentos, livros e o vídeo Como alitas de chincol, 2002, que narra a história das arpilleras dentro do contexto político chileno.

A arpillera é uma técnica têxtil com raízes numa antiga tradição popular iniciada por um grupo de bordadeiras de Isla Negra, região localizada no litoral chileno. Neste trabalho, retalhos e sobras de tecidos são bordados sobre sacos de batatas ou de farinhas. Seguindo a técnica das arpilleras originais, as peças apresentadas nesta exposição foram criadas em oficinas e montadas em suporte de aniagem, pano rústico proveniente de sacos de farinha ou batata, que geralmente são fabricados em cânhamo ou linho grosso.

Como forma de registrar a vida cotidiana das comunidades e de afirmar sua identidade, as arpilleras se converteram em um meio de expressão tanto individual como coletivo, e em uma fonte de sobrevivência em tempos adversos. Muitas arpilleras fazem referência aos valores da comunidade e aos problemas políticos e sociais enfrentados e se tornaram uma forma de comunicação, tanto no próprio país como fora dele, sobre o que estava acontecendo. Além das próprias cenas de denúncias, muitas arpilleras tinham pequenos bolsos no verso que serviam para o envio de bilhetes. “As arpilleras mostravam o que realmente estava acontecendo nas suas vidas, constituindo expressões da tenacidade e da força com que elas levavam adiante a luta pela verdade e pela justiça. Além disso, cada uma destas obras pôde quebrar o código de silêncio imposto pela situação então vivida no país. Hoje, são testemunho vivo e presente, e uma contribuição à memória histórica do Chile”, afirma Roberta Bacic, curadora da exposição.

Em uma das arpilleras exposta, Corte de água, 1980, nota-se homens e mulheres segurando baldes. Trata-se de uma resposta do povo para aqueles que cortavam o fornecimento de água potável para marginalizá-los, e também para impedir que saíssem para protestar. Em resposta, a população foi com seus baldes até os bairros de classe média para pedir água. Ao concluir a tarefa, a água era levada aos vizinhos em barris, e distribuída de forma organizada. A cena vibrante e colorida ressalta o sentido de comunidade e a força política e social que atitudes como essas davam às mulheres dos povoados. Já em Paz, justiça, liberdade, 1970, são exibidas formas, técnicas e desenhos típicos da época. Retalhos variados expressam uma ação de protesto não violento num subúrbio de Santiago. A Cordilheira dos Andes, o sol e o uso de personagens tridimensionais também são comuns nas arpilleras desse período. A Cordilheira é um elemento de referência e identidade, e o sol nos lembra que ele brilha para todos, sem distinção. Uma viatura da polícia é incorporada à cena, ocupando um espaço no dia a dia sem intimidar os personagens.

“Estes trabalhos nos mostram que a guerra e os conflitos são reais e verdadeiros. Mas também evidenciam o resultado de muitas horas de trabalho. Assim como as pinturas mostram as pinceladas, estas histórias em tapeçaria e bordado ressaltam cada ponto dado e, por extensão, cada movimento da mão que pôs a agulha no pano e a retirou dele. Mostram a memória como uma atividade física, um processo material, com o qual os artistas assimilam no mesmo ato o vivido interiormente e o que é expresso para os outros” (Young, James E. The texture of memory: holocaust memorials and meaning. New Haven: Yale University Press, 1993).