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Carlos Bunga – Mausoléu

28 jan 2012
11 mar 2012

A Pinacoteca do Estado de São Paulo, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, apresenta exposição Mausoléo de Carlos Bunga (Porto, Portugal, 1976). Para o Projeto Octógono, Bunga selecionou um conjunto de esculturas do acervo do museu, que serão colocadas no centro do espaço, onde será construída uma edificação de papelão, fita adesiva e tinta, criando um novo ambiente dentro o espaço, uma espécie de torre-mausoléu, envolvendo as obras e que poderão ser vistas por meio de fendas e aberturas nas suas paredes. Segundo Ivo Mesquita, curador da mostra, “os trabalhos de Carlos Bunga são marcados pelo seu caráter efêmero e mutável, pois estão sujeitos a intervenções e performances do artista, no sentido de causa o seu desmoronamento como resultado final do trabalho. Estas situações remetem de imediato à memória de casas destruídas e paredes demolidas, mas podem, no interior do museu, também serem percebidas como uma extrapolação do campo da pintura. O diálogo existente entre a arquitetura e o espaço onde as obras do artista são construídas permite ao observador a apreensão dos processos de mutação contínua da arquitetura e do espaço urbano, assim como questões específicas da arte e de suas instituições.” Entretanto, deve ser observado que os projetos de instalações e intervenções de Carlos Bunga não seguem nenhum projeto concebido ou desenhado anteriormente. Ao contrário, eles nascem do embate direto do artista com o espaço que hospedará o trabalho. No caso do projeto para a Pinacoteca, para além da relação direta com a arquitetura do museu, ele também trabalha com a própria noção de museu enquanto instituição cutural.

A obra de Carlos Bunga aborda questões da precariedade, fragilidade e arquitetura degradada das cidades. Seu processo criativo começa a partir de uma pesquisa sobre as características históricas, e culturais do espaço. Depois, Bunga inicia a construção de planos e volumes pranchas de papelão e fita adesiva. O artista vai tomando as decisões intuitivamente, numa relação física com o espaço e com a própria instalação à medida que esta vai ganhando forma. Quando a estrutura está concluída, as suas superfícies exteriores são uniformizadas pela pintura a branco; as superfícies interiores postas sobre as paredes do espaço expositivo, em contrapartida, são pintadas de diversas cores e abrigarão cinco obras do acervo da Pinacoteca. “Esta instalação propõe uma reflexão sobre a arquitetura e a evolução da cidade. O meu processo de trabalho tem bastante espaço para a intuição e improvisação, e o espaço Octógono permite que eu explore bastante todas essas questões. Trabalhar aqui significa ter a possibilidade de intervir/relacionar-se com o lugar e também com a riqueza de poder aprender”, afirma Carlos Bunga.

A seguir texto do curador Ivo Mesquita

Carlos Bunga: Mausoléu

As instalações e intervenções do artista Carlos Bunga nascem da sua experiência direta com o espaço de trabalho. Não existe um projeto pré-determinado, algo desenhado e planejado a ser construído e apresentado. São obras que resultam de um embate – frontal, heroico, afetivo – com a arquitetura que as hospeda. Com materiais perecíveis como papelão, fita adesiva, cola e tinta de parede, o artista propõe novos ambientes, altera a circulação e a percepção de interiores específicos, construindo uma arquitetura transitória, precária, que cria uma fricção com a arquitetura do espaço expositivo, institucional.

Inicialmente, essas construções estavam sujeitas a intervenções performáticas do artista no sentido de provocar seu desmoronamento. O que se via – em exposição – era uma memória do trabalho, os vestígios do investimento e da ação do artista. O caráter efêmero desses trabalhos e a fragilidade revelada das construções, provocavam, de imediato, evocações de caráter literário, permeadas de associações a questões relativas às paisagens urbana e social. As obras mais recentes se afirmam como uma arquitetura que desafia outra arquitetura, que a fragmenta para tornar a vê-la. A ação concentra-se no processo de construção, então uma performance informal, privada, como se realizada no estúdio do artista. Finalizadas, elas dão origem a conjuntos de desenhos, uma pesquisa sobre suas possibilidades conceituais e de superação de restrições formais ou espaciais. Evocam anotações de viagem, vistas, visões, que, como registro posterior do trabalho, um caderno de ”pós-projeto”, inscreve esses desenhos na linhagem das arquiteturas imaginárias da História da Arte.

Na tradição da arquitetura e do urbanismo, um mausoléu é um túmulo de grandes proporções para guardar os restos mortais de reis, imperadores, proeminentes figuras públicas ou heróis de uma nação. Na paisagem das cidades, onde eles existem, marcam a morte para celebrar a grandeza da vida, perenizar a memória, ao mesmo tempo em que pontuam a retórica dos vencedores e do poder instituído.

Na Pinacoteca, Mausoléu é uma grande torre de papelão, construída no centro do museu, que abriga um conjunto de esculturas do seu acervo escolhido pelo artista. Ela mimetiza a arquitetura deste espaço interior, mas, ao mesmo tempo, a dificulta:, altera a forma como ele é percebido para lembrar a sua função. O deslocamento das entradas, o delicado giro na estrutura simétrica do Octógono, a abertura de fendas e janelas na parte superior, a cor do papelão e o laranja dos tijolos, a superfície de pintura na parte externa, são associações que põem em movimento um conjunto de significados relacionado a ele e à história da organização que o abriga.

Por um lado, a aparência inacabada da construção, expondo o interior das paredes, como que reverbera a arquitetura nunca terminada, característica histórica do edifício da Pinacoteca, para sublinhar a ideia do museu como algo sempre em construção. Por outro, no centro da sala, as esculturas – o corpo guardado no mausoléu, o acervo do museu – estão ali na qualidade de regentes do tempo e do espaço, alheias a qualquer hierarquia ou discurso curatorial que as organize, plenas em sua materialidade e especificidade, abertas ao enfrentamento direto com o espectador. Dessa forma, Carlos Bunga constrói um memorial para celebrar a vida e o tempo eterno que habitam o museu.

Ivo Mesquita
Curador
Pinacoteca de São Paulo

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