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Desenhar no Espaço: Artistas abstratos da Venezuela e do Brasil

27 nov 2010
06 fev 2011

Parte da importante Coleção Cisneros de Arte Latino-americana, a exposição com cerca de 70 peças entre pinturas, esculturas, objetos e desenhos, mostra o processo de passagem, desenvolvido pelo trabalho dos artistas, do plano pictórico para o espaço, na história da arte da Venezuela e do Brasil, entre 1947 e 1987. Apresenta uma oportunidade rara para o público brasileiro de ver obras fundamentais desse período ao mesmo tempo em que oferece a possibilidade de leituras comparativas e complementares.

Segundo o curador, Ariel Jiménez, a exposição vai além do diálogo sobre o percurso da arte abstrata nos dois países e traça um panorama da formação de uma era pós-moderna na arte sul-americana. Sobre o título da mostra, Jiménez afirma que a expressão “desenhar no espaço” é usada por Jesús Soto ao definir seus esforços para superar as limitações do plano pictórico.
O abstracionismo surgiu na Europa entre os anos 1910 e 1920. As pesquisas geométricas, associadas ao rigor matemático, a simplificação da forma e os novos usos da cor orientam parte significativa da arte abstrata do século XX. No Brasil, a abstração chegou anos mais tarde, atingindo seu ápice entre as décadas de 1940 e 1970. Os artistas apresentados na mostra foram dos primeiros a aderir aos conceitos do movimento, rompendo assim com a figuração e criando novos paradigmas para a relação entre o espectador e a obra.

Na exposição, o público poderá perceber pontos de encontro e divergências na produção brasileira e venezuelana. “A busca por extrapolar os limites de planos e corpo material da pintura, impostos pelo uso de telas e molduras como suporte da obra é algo comum aos dois países. Mas no Brasil, os artistas o fizeram em geral priorizando sua presença corporal, mexendo em volumes, na espacialidade das obras e no contato mais direto com o espectador. Já na Venezuela, os artistas concentraram esforços no jogo entre luzes e cores nas telas para garantir tal experiência visual. É o que acontece com Lygia Clark e Jesús Soto, em produções da década de 1950. Enquanto a obra Radar (1960), da série Bichos, de Lygia Clark, é um corpo que se oferece ao espectador, e cujas características (ser articulado, ter peso e textura) influenciam na experiência que nos propõe, em Soto, obras como as da série Vibración (1959), esse acontecimento é óptico e ocorre na obra como espetáculo visual, sem supor interação com o espectador” afirma Jiménez.

Também poderão ser vistos trabalhos de artistas que exploraram a cor como elemento vivo em sua produção, a fim de evidenciar estruturas e planos relacionados. Embora desempenhassem o uso da cor em materiais e propostas diferentes, ela é o meio ativo nas obras de artistas como Willys de Castro, Hélio Oiticica, Alejandro Otero e Carlos Cruz-Diez. Enquanto em Castro, a cor aparece de maneira maciça e minimalista, em obras como em Objeto Ativo (1961), em Otero as cores dão força para a fluidez e movimento das linhas, como na obra Coloritimo 62 (1960). E, em Hélio Oiticica, a cor surge para destacar relevos e depressões em sua produção, como em Metaesquema (1957), nas obras como Fisicromia nº 21, de Cruz-Diez, a cor está à serviços de produzir transparências e efeitos de ótica.

Obras de Mira Schendel, no Brasil, e Gego na Venezuela, completam a exposição. Segundo Jimenez as duas inscrevem-se de maneira diferente dos demais artistas frente ao abstracionismo. Ambas chegaram a América do Sul já adultas e formadas, provenientes do cenário artístico europeu. Na obra de Mira, não se nota a rigidez formal e teórica, programática… Assim como ela, Gego se distanciava da realidade abstrata dos cinéticos venezuelanos, pelo uso diferenciado das linhas, e do aproveitamento da luz em suas obras, saindo do plano das telas e utilizando materiais maleáveis em suas obras, como arame e ferro. “As duas artistas se encontram nos limites entre as tradições abstracionistas da Venezuela e do Brasil, pois suas obras são justamente isso, um trabalho na borda, entre os limites”, conclui Jiménez.

Para Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado, “a exposição apresenta um privilegiado momento da arte dos dois países. Com efeito, as décadas de 1950 e 1960 testemunharam, no Brasil e na Venezuela, o desenvolvimento de uma produção de matriz abstrata construtiva que se impõe, ate hoje, não só como referencia histórica, mas como paradigma para inúmeras poéticas subsequentes. As emblemáticas obras que compõem a exposição – exemplos excepcionais da melhor produção de cada artista participante –, no dialogo proposto pela cuidadosa e estimulante curadoria, certamente oferecerão ao publico visitante uma experiência única de sensibilização e conhecimento”.

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