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Lygia Pape – Espaço Imantado

17 mar 2012
13 maio 2012

A Pinacoteca do Estado de São Paulo, instituição da Secretaria da Cultura, apresenta primeira exposição retrospectiva de Lygia Pape – um dos principais nomes da arte brasileira contemporânea junto com Hélio Oiticica e Lygia Clark, aos quais a artista tinha uma forte ligação. Espaço Imantado reúne cerca de 200 obras, entre pinturas, relevos, xilogravuras, ações performáticas – mostradas por meio de objetos, vídeos e fotografias –, produção cinematográfica, cartazes de filmes, poemas, colagens e documentos. A mostra exibe suas peças mais conhecidas, como Tecelares (1957) e Livros, e outras experiências menos difundidas, como os Ballets Neoconcretos e sua produção cinematográfica, mais precisamente, a seleção de filmes experimentais que será exibida pela primeira vez em conjunto. Além disso, também serão apresentadas obras de experiências coletivas que sobreviveram por meio de documentos visuais. As Ttéias, instalações realizadas com fios prateados, dourados ou transparentes, que farão o espectador submergir em um espaço dominado pela luz e pela abstração poética estarão no centro da mostra.

Para entender a trajetória de Lygia Pape é necessário conhecer o contexto artístico e político do Brasil da segunda metade do século XX. Nos anos 50, o País passou por um processo de modernização, vivenciando iniciativas inovadoras na literatura, arquitetura e no urbanismo. Na arte, esse processo levou à abertura dos Museus de Arte Moderna em São Paulo e no Rio de Janeiro, além do início da Bienal de São Paulo, entre outros acontecimentos. O percurso de Espaço Imantado revisa o papel protagonista de Lygia Pape nesta modernização, com sua participação em duas correntes não figurativas. Primeiro, participando do Grupo Frente, que defendia a linguagem geométrica como um campo aberto à experimentação; depois, na fundação do neoconcretismo, que propiciava uma participação cada vez mais ativa do espectador na obra, dando um passo decisivo na integração da arte com a vida.

Da fase inicial à madura. Concretismo e Grupo Frente

A fase inicial de Lygia Pape foi resgatada para esta mostra por meio de quatro telas realizadas na linha da abstração de tendência orgânica, passando depois à abstração geométrica por meio de uma série de pinturas e relevos feita pela artista quando já formava parte do Grupo Frente. Tratam-se das pinturas denominadas Jogos Vectorais, realizadas entre 1953 e 1955, que consistem em telas que apresentam um jogo dinâmico entre linhas e quadrados, e dos relevos Jogos Matemáticos que, baseados na repetição de formas regulares, brincam com o negativo e o positivo, com a cor e a profundidade.

Em 1955, Pape começa a trabalhar com a xilogravura, uma técnica que lhe serve de meio de exploração para obter as evidências mais avançados da época. Um exemplo disso é a série Tecelares, um conjunto excepcional com o qual inicia a sua fase madura, evoluindo em complexidade espacial e técnica, e forma um corpus sólido que será objeto de reelaboração constante ao longo de sua carreira. Os Tecelares foram apresentados nas quatro exposições realizadas pelo Grupo Frente entre 1954 e 1956, e na histórica Exposição Nacional de Arte Concreta (que teve lugar primeiro no MAM de São Paulo, em 1956, e depois no MAM do Rio de Janeiro, em 1957).
Em um primeiro momento, predominam os Tecelares claros, realizados pela incisão de sutis linhas na madeira, mas, com o passar do tempo, vão escurecendo por meio da utilização de superfícies pretas mais amplas que deixam entrever as características do material. Para a artista, a série representa a primeira tentativa satisfatória de distinção entre fundo e forma, aspecto determinante na criação de um espaço qualificado por Pape como “desdobrado, invertido, ambivalente”. O espaço como elemento visual e semântico tem sua prolongação nos Desenhos (1957-1959), onde a trama às vezes se interrompe para projetar formas geométricas ligeiramente deslocadas ou em negativo. Realizados em sua maioria em tinta sobre papel japonês, a artista consegue uma leveza que nos remete às gravuras japonesas.

Neoconcretismo. Ballets, Poemas e Livros

Em 1959, junto com Hélio Oiticica e Lygia Clark, Pape abandona o Grupo Frente e inicia um dos movimentos mais significativos da arte brasileira, o neoconcreto, que lhes permitem desenvolver obras de arte a serem incluídas na vida cotidiana. Neste contexto, os Ballets Neoconcretos I e II, são lançados. Ambas as obras são apresentadas na exposição por meio da recriação do Ballets I e de vídeos de ambos. O primeiro traduzia visual e musicalmente um poema com o movimento de formas geométricas impulsionadas por bailarinos escondidos em seu interior. O segundo traçava o percurso frontal de dois planos que se aproximavam e distanciavam na escuridão até atingir a máxima ambivalência entre fundo e figura. Fruto da colaboração de Lygia Pape com o poeta Reinaldo Jardim e o bailarino Gilberto Motta, os Ballets incorporam o tempo subjetivo à obra de arte, um aspecto chave do neoconcretismo, que preludia a participação do espectador ao diminuir a distância entre a obra de arte e a vida.
Pape compartilha muitos comportamentos com os principais poetas e teóricos do momento, mas em alguns casos não se iguala a seus contemporâneos. Nesse sentido, foi a primeira dos neoconcretistas a aplicar o mesmo princípio artístico que acabamos de citar, a sua criação poética: a participação do leitor na construção do livro. Em uma de suas últimas declarações, resume toda a sua prática artística: “quero trabalhar intensamente em um estado poético. Estou em busca do poema”. O ponto de partida para esta atitude foram os Poemas luz e os Poemas objeto (realizados entre 1956 e 1957). Estes correspondem ao antecedente direto do Livro da criação (1959-60), um origami poético no qual não faz uso da palavra, mas constrói uma narrativa por meio da imagem. Em suas 14 páginas ou “unidades”, a artista utiliza formas e cores, criando diagramas tridimensionais montáveis e desmontáveis que podem ser desdobrados pelo espectador, e que narram a criação do mundo.

O Livro da Arquitetura (1959-60) retoma o ato performático. Neste caso, explora a criação de espaços para habitar o mundo e o significado das formas arquitetônicas. Diferentemente do que acontece na obra anterior, nesta o espectador pode realizar a leitura em sentido inverso, desmontando a forma e, se quiser, voltando ao estado plano do objeto. Finalmente, o Livro do Tempo (1961-1965) é uma grande tela geométrica constituída por 365 unidades de madeira pintada, equivalentes aos dias do ano.

Atividade cinematográfica. Cinema Novo

A ruptura do grupo neoconcreto, em 1963, marcou um ponto de inflexão na trajetória de Lygia Pape, que se lança no meio cinematográfico para dar início a sua atividade como cineasta e às suas colaborações com o Cinema Novo. Desta forma são reunidos na exposição, pela primeira vez, quase uma dezena de filmes realizados entre 1967 e 1976. Seu primeiro filme, La Nouvelle Creation (1967), rodado em 35 mm, manipula imagens pré-existentes da NASA para sugerir o nascimento de um homem novo, procedimento ao qual recorrerá novamente em Our Parents “Fossilis” (1974), uma colagem de retratos da população indígena extraídos de cartões postais. A atração por esta temática e pela cultura popular é evidenciada nos filmes A mão do Povo e Carnival in Rio (1974), mais relacionados com o documentário, enquanto o espírito do Cinema Novo está muito presente nos filmes Wampirou (1974), Catiti Catiti (1978) e Arenas Calientes (1974). Outra questão recorrente na sua cinematografia é a dimensão erótica. O homem e sua bainha (1968) evoca o espaço como um contínuo ambíguo interior-exterior, enquanto Eat me (1976) representa o germe de uma obra sobre a exploração da imagem da mulher na sociedade de consumo.
Também estão presentes na mostra desenhos dos cartazes e dos créditos que fez para os filmes dos cineastas que integravam o movimento do cinema experimental brasileiro, como Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Walter Lima Jr., entre outros para filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) de Glauber Rocha e Vidas Secas (1963) de Nelson Pereira.

Nova Objetividade Brasileira

Em 1964 é instaurada a ditadura militar no Brasil, mas a vontade de renovação em todos os âmbitos da cultura brasileira não diminui. Neste contexto, surge o tropicalismo, cujo nome deriva da obra Tropicália (1967) de Hélio Oiticica, realizada por ocasião da mostra Nova Objetividade Brasileira. A Nova Objetividade marcou o retorno de Lygia Pape para as artes plásticas. As suas obras Caixa de baratas (1967) e Caixa de formigas (1967) não representam apenas uma crítica explícita à arte mumificada dos museus, mas também à condição marginal da população e à
voracidade com a qual a ditadura se alimenta de suas vítimas. Trata-se, no primeiro caso, de uma coleção bem escolhida e perfeitamente alinhada de baratas mortas, enquanto a Caixa de formigas consiste no ir e vir de formigas em cima de um pedaço de carne crua e com a frase “a gula ou a luxúria”, escrita no fundo da caixa.
Em 1968 a atividade de Lygia foi intensa, sugerindo uma volta para a experimentação sensorial e participativa em consonância com o trabalho realizado por outros artistas. No contexto da manifestação Apocalipopótese, a artista apresenta a ação O Ovo (1968), na qual três pessoas saem do interior de três formas cúbicas após quebrar a casca em um gesto ao mesmo tempo transgressor e libertador. Nesse mesmo ano conclui Divisor (1968), sua primeira experiência coletiva e uma das mais importantes da época por sua dimensão sensorial e poética. Nela, os participantes mostram as suas cabeças pelos buracos de um tecido de grandes dimensões que os une entre eles e os separa de seus corpos. O caráter lúdico da experiência transforma o impulso individual em um pretexto para a mobilização coletiva. Roda dos Prazeres (1968) mostra, do mesmo modo que as duas experiências citadas, o interesse especial de Lygia pela realização de uma obra sem autor, que pudesse ser repetida sem que a artista estivesse presente. Assim será realizada na exposição. Deste modo é provocada uma tomada de consciência dos sentidos, incitando o público a se servir de umas gotas de água com corante alimentício de diferentes sabores para tingir a língua de cores distintas. Por último, Espaços imantados (1968) contém um amplo registro fotográfico de ações que funcionam como campos magnéticos para a interação social espontânea.

Ttéias

As obras conhecidas pelo nome de Ttéia adotam diversas concretizações, de 1977 até o ano 2000. A primeira remonta ao projeto Ttéias-Redes, desenvolvido em 1977 com seus alunos, no Parque Lage. A série de peças elaborada com os característicos fios admite variantes em função do espaço (esquina / isolada), do tipo de luz (natural / artificial) e do fio (cobre / prata / transparente), assim como da estrutura escolhida entre as diversas projetadas pela artista.
Nessas obras encontra-se o segredo para compreender a progressão gradual de Lygia em direção à total abstração do espaço poético. Último resultado de suas experiências no construtivismo brasileiro, as Ttéias são um elo a mais na incorporação do tempo subjetivo e da participação do espectador na obra de arte. Se trata, de acordo com Pape, de “uma rede onde as aranhas tecem planos de vida ou morte”.

A artista

Lygia Pape (Nova Friburgo, 1927 – Rio de Janeiro, 2004) é considerada uma das principais artistas brasileiras, pelo grau de experimentação atingido em sua singular produção e pela constante mutação de suas obras. Iniciou sua carreira alinhada com o concretismo brasileiro do Grupo Frente. Junto com artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark, abandona este grupo em 1959 inaugurando a arte neoconcreta, cujo manifesto é considerado como o início da arte brasileira contemporânea. A característica principal da obra de Pape é a integração das esferas estética, ética e política. Durante a fase neoconcreta realizou uma investigação sobre o dualismo entre matéria e forma com obras como Ballet Neoconcreto e Tecelares. Aos poucos, a aproximação de sua obra com a vida levou-a à inserção da temporalidade e a uma transformação constante dos meios. Uma conquista importante dos artistas brasileiros como Pape foi o fato de tomar a abstração europeia como ponto de partida, mas sem fazer desta uma mera versão. Pelo contrário, enfrentaram-na com uma atitude de rebeldia e respeito, e aproveitaram a situação local para realizar um discurso internacional. Após refletir sobre a forma, Pape passou a trabalhar em seus Livros, levando em conta a luz e os efeitos do olhar do espectador. Esse interesse na percepção da obra resultou, naturalmente, nas ações performáticas dos anos 60, algumas vezes baseadas na participação de outro indivíduo, em vídeos sobre os diferentes olhares sobre um mesmo espaço ou sobre sua influência na sua própria obra. No final dessa década, quando a repressão política no Brasil é mais forte, realiza suas caixas como uma crítica ácida aos valores e repertórios das elites e instituições culturais. Em suas últimas obras voltou a trabalhar sobre o objeto e a instalação, compreendidos como a representação de sensações, a tentativa de criar uma manifestação eventual cujo caráter não é permanente e que contém uma narratividade subjacente. Como descreveu Hélio Oiticica, a obra de Lygia Pape é uma semente permanentemente aberta.

Palestras

Lygia Pape – Espaço Imantado

29 de março de 2012 (quinta-feira), às 19h
Cauê Alves, crítico de arte e professor do curso de História, Crítica e Curadoria da PUC-SP
Taisa Palhares, curadora e pesquisadora da Pinacoteca de São Paulo

3 de maio de 2012 (quinta-feira), às 19h
Paula Pape, presidente do Projeto Lygia Pape
Paulo Herkenhoff, curador e crítico de arte

Todas as palestras ocorrerão no Auditório da Pinacoteca Luz,

Praça da Luz 2, São Paulo. Entrada franca

Dança

Balé neoconcreto I e II, de Lygia Pape, com participação da coreógrafa Né Barros
30 de março de 2012 (sexta-feira), às 20h e 31 de março de 2012 (sábado), às 19h
SESC Bom Retiro, à Alameda Nothmann, 185, São Paulo
Informações e ingressos telefone (11) 3332-3600