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Moussia

07 dez 2013
23 fev 2014

A Pinacoteca do Estado de São Paulo, instituição da Secretaria Estadual de Cultura, apresenta a exposição da artista de origem russa, Moussia Pinto Alves (São Petersburgo, Rússia, 1901 – São Paulo – Brasil, 1986). Composta por mais de 70 obras, realizadas desde os anos 1930 até a época de seu falecimento, é uma exposição panorâmica onde os destaques da mostra são uma série de retratos e outras pinturas, muitas abstrata, suas esculturas e algumas joias.

Moussia von Riesenkampf, embora nascida em São Petersburgo, viveu desde criança até 1918 em Sebastopol, importante porto no sul da Rússia, pois seu pai era almirante da esquadra imperial, ali sediada. Logo após a Revolução – tendo falecido seus pais – saiu do país, passando pela Turquia e se estabelecendo por um tempo em Paris, até ir para Hamburgo, onde, em 1923, conheceu o jovem intelectual paulista Carlos Pinto Alves. Casaram-se em Lisboa, vindo então morar em São Paulo, numa casa na rua Barão de Itapetininga, que logo se tornou um ponto assíduo de reuniões não apenas de modernistas brasileiros como também de estrangeiros de passagem, como o ator Jean Louis Barrault. Amigos da casa eram Mário de Andrade, Anita Malfatti, Noemia, Di Cavalcanti, Djanira, Gomide, Brennand, Ungaretti, Murillo Mendes,Vieira da Silva e Arpad Szenes, apenas para citar alguns.

A casa em que residiam era muito próxima à casa do sogro, Valdomiro Pinto Alves, que morava na rua Guaianases, na esquina da alameda Nothmann, casa do início do século XX, muito bem preservada, que também servia como fervescente ponto de encontro de artistas e intelectuais modernos. Hoje a casa é sede da empresa Trail infraestrutura, patrocinadora desta exposição. Logo Moussia começou a participar dos principais eventos modernistas, como do famoso Salão da Escola Nacional de Belas Artes de 1931, organizado por Lucio Costa (1902-1998), no Rio de Janeiro.

Tanto na escultura como na pintura, Moussia incursionou pelo campo da abstração, da qual foi uma das pioneiras no Brasil – já em 1948 proferiu uma palestra sobre o assunto em Recife. Os movimentos rotativos observáveis em muitas de suas pinturas parecem dialogar com os racionistas do modernismo russo. As esculturas evoluíram para uma abstração lírica, em que as formas se expandem e se retraem através de volumes entremeados de vazios ocupados por matizes de luz, sombra e movimento. Nelas há uma ligação forte com a escultura de Henry Moore (1898-1986), de quem foi amiga, assim como de Alexander Calder (1898-1976), afirma a curadora Stella Teixeira de Barros.

Moussia retornou em diferentes momentos à figuração: costumes populares, vasos de flores, naturezas-mortas, temas religiosos, impressões do cotidiano foram motivos abordados em busca da harmonia da luz, da cor e da forma, com a mesma energia plástica das estruturas abstratas. Sem temor da experimentação, procurou se expressar por meio de diferentes materiais. Não à toa, na produção artística de Moussia a ousadia se aliou à liberdade de expressão, como uma energia de quem parecia sempre disposta a ultrapassar seus próprios limites. Interessou-se pelo design de joias, que considerava “obras plásticas derivadas da escultura”, expondo esses trabalhos a partir de 1959, no Rio de Janeiro, e posteriormente, por diversas vezes em São Paulo. Aventurou-se também no cinema, atuando em pequenas pontas, em Brasil ano 2000, de Valter Lima Júnior e Azyllo muito louco, de Nelson Pereira dos Santos. Vale lembrar que Moussia, quando do falecimento de seu marido na década de 1960, passou a frequentar Parati, ainda na época muito preservada do assédio turístico que veio a ter mais tarde; comprou ali uma casa onde residiu por longas temporadas. Também morou por um tempo no Rio de Janeiro, e só na década de 1980 retornou definitivamente a São Paulo.

“A atuação de Moussia como artista e como participante dos movimentos culturais ocupa na história da arte brasileira uma posição singular: sua percepção lúcida, desde a primeira hora, dos novos caminhos que a arte abstrata abria permitiu que desenvolvesse uma obra de vanguarda, com a diversidade e variedade que caracterizam o impulso para a experimentação. Atuação que cabe agora resgatar, num arco que abrange a intensa atividade cultural com uma inegável qualidade plástica”, afirma a curadora.