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Blog da Pina

Postagem: No ordenado do Frevo: trabalho e organização política no Carnaval do Recife

Publicado em 23 de janeiro de 2026

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: Artigos

Luiz Vinícius Maciel, Coordenador de Memória do museu Paço do Frevo (PE)

“Cordas, cordas, cordas
Tantos sons, cordões, alegorias
Tem cetins na avenida
Corredores de tapetes
Os garis tocam trompetes
Prostitutas e pivetes
Batem palmas pros garçons
São pescadores, marinheiros
São jornaleiros, cobradores (…)”

Bloco do cais – Nuca Sarmento e Eriberto Sarmento

(interpretação: Orquestra Malassombro)

 

Para espanar, recomenda-se usar um espanador. Para varrer, uma vassoura. E para caiar de branco uma parede? Um caiador, é claro. Esta parece, à primeira vista, uma simples lista de objetos de trabalho, mas o que esses nomes têm em comum? Para além de instrumentos laborais, eles têm relação com o Frevo pernambucano, manifestação fortemente marcada por nomenclaturas que remetem ao cotidiano trabalhador e seus objetos. Tanto nos nomes dados aos e movimentos da dança do Frevo, como Tesoura, Parafuso, Ferrolho, quanto nos títulos de jornaizinhos carnavalescos de clubes pedestres do Recife do início do século 20[1].

Passos de frevo Parafuso (acima) e Tesoura (abaixo). Perceptível a relação do movimento corporal com o movimento desses objetos, seja de torção ou de compressão e expansão. Crédito: Projeto Trançados Musculares. Em cena, o passista Gil Silva.

Essa relação não é sem razão: Tais agremiações reuniam parte significativa dos trabalhadores da cidade, uma população majoritariamente pobre e negra. Ou seja, seus jornaizinhos operavam como um importante instrumento de comunicação e difusão dos seus grupos[2]. Neles, divulgavam a lista de integrantes, piadas picantes sobre o cotidiano da cidade e a vida política, assim como anunciavam suas novas canções e repertório. De fato, um panfleto-portfolio. Para o Clube Vassourinhas, A Vassoura foi seu jornal e objeto de trabalho. O mesmo ocorreu com os Clube Espanadores que editavam, por exemplo, O Espanador.

Capa do jornalzinho carnavalesco A Vassoura, 12/02/1899. Fonte: Coleção de Jornais do Século 19 – Companhia Editora de Pernambuco

Mas o que explicaria tal coligação tão intensa do Frevo com o mundo do trabalho (e, por tabela, seus objetos)? O momento histórico e social que a manifestação surge nos dá pistas muito importantes. No final do século 19 e início do 20, o Brasil vivia ebulições sociais relevantes, como a abolição da escravatura, que remodelou a sociabilidade de pessoas negras pelo país, produzindo migrações entre o campo e a cidade, com pouca oferta de recursos de cidadania como educação e emprego, resultando em novas modalidades de marginalização, informalidade e desigualdade social. Além disso, é, finalmente na virada dos séculos 19 e 20, que, em Pernambuco e no Brasil, há os primeiros grandes impactos da industrialização a nível global, com a construção de indústrias têxteis, expansão de malhas ferroviárias e portos marítimos.

Ou seja, é nesse contexto de ebulição que estivadores do porto, ferroviários, cigarreiras e cigarreiros, verdureiras, quituteiras, varredores, e trabalhadores de todo o tipo, circulam e interagem pela cidade, juntam-se e, sobretudo, se protegem em grupos diversos. Ou seja, não é difícil olhar para clubes pedestres (oficialmente Clubes Carnavalescos Mistos) e ver, por trás, sindicatos em festa, associações de ajuda mútua, espaços de amparo e autocuidado para essas populações. Fantasiar-se, aprumar-se, perfumar-se e ir para rua eram atos de fortalecimento de autoestima, reconhecimento público e um importante contra-ataque aos olhares segregacionistas que perseguiam tanto simbolicamente quanto fisicamente as agremiações oriundas de grupos populares. Diversas ações do estado foram empregadas para vigiar, limitar o uso do espaço público e violentar sujeitos fazedores de Carnaval. Logo, agremiar-se era estratégia de sobrevivência.

Essas alternativas foram postas em prática desde muito cedo. Em 1889 – no primeiro Carnaval do pós-abolição e meses antes da Proclamação da República, só firmada em novembro, bem depois da folia – surgiam no Recife o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas e a Troça Carnavalesca Mista Verdureiras de São José.

Estandarte do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas (CCMV). Acervo Paço do Frevo. Foto: Hugo Muniz | Estandarte da Troça Carnavalesca Mista Verdureiras de São José. Acervo Paço do Frevo. Foto: Hugo Muniz

Ambas em atividade até hoje, possuem estandartes que fazem parte do acervo do Paço do Frevo, museu no Recife e Centro de Referência em Salvaguarda do Frevo (Iphan, 2017), e estão, hoje, na exposição Trabalho de Carnaval da Pinacoteca. Junto deles, na exposição, alguns fac-símiles dos jornaizinhos carnavalescos também ajudam a contar essa história. Trajetória de homens e mulheres,  trabalhadores e trabalhadoras pretas e indígenas, que rasgavam as ruas do Recife à força, com parafusos e tesouras, e desempoeiravam os desafios do cotidiano com vassouras e espanadores em busca de um ordenado justo. Justo como o Frevo.

[1] Para navegar, online e de qualquer lugar, nas páginas desses jornaizinhos consulte a Coleção Online de Jornais do Século XIX da Companhia Editora de Pernambuco – Cepe e a Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional – HDBN

[2] Para entender mais sobre o contexto histórico e social dos jornaizinhos carnavalescos vale a leitura da dissertação de mestrado intitulada Periodismo folião: jornais carnavalescos dos clubes pedestres recifenses no alvorecer da República.

Sobre o autor convidado:

Luiz Vinícius Maciel é historiador, doutorando em História pela UFPE e mestre em História pela UFF. No Paço do Frevo, é Coordenador de Memória no Centro de Documentação e Memória e pesquisa temas como Frevo, construções de pernambucanidade, projetos de identidades regionais e clubes pedestres. Integra as equipes de pesquisa no Inventário Nacional de Referências Culturais do Pastoril em Pernambuco e do Carnaval Popular de Olinda.

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