Entre março e novembro de 2025 a Pina realizou os encontros do Grupo de Estudos de 120 anos, oferecido para pessoas pesquisadoras, artistas e entusiastas da história da instituição. Este post é uma adaptação de um dos ensaios realizados.
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A entrevista com Nicole Kouts, parte de pesquisa para o grupo de estudos do projeto À Luz de 120 anos: O nascimento de uma metrópole, a Pinacoteca e seu patrimônio cultural, começa mesmo antes de começarmos a gravar. Ela me serviu um bolo e um copo d’água – me ofereceu café, mas recusei – e começamos a conversar como se nos conhecêssemos há anos. Na verdade, aquele era nosso primeiro encontro em pessoa, nossa primeira longa conversa. Pelas próximas três horas, o tempo desapareceu, e fomos movidas daquele ateliê – compartilhado e cheio de cores – para a casa dos avós de Kouts, para sua escola de infância e até para a Grécia, de onde seus avós vieram e onde a própria artista passou um período como residente artística, resultando em múltiplas exposições no continente europeu.

Nicole Kouts em seu ateliê. São Paulo, 15 de agosto de 2025.
O tempo e o diálogo seriam também os próprios temas da entrevista que se seguiu, muito porque são temas tão prevalentes na própria arte de Nicole. Ela, que começou cedo, com ilustrações, sempre soube que queria ser artista. Como ela coloca:
“Fui entendendo esse lugar de artista na adolescência, quando […] eu buscava espaços para mostrar meu trabalho, conhecer outros artistas […], participar de grupos e coletivos, muito no campo da ilustração, e depois isso foi se expandindo para mais possibilidades.”
Nicole credita também muito à cidade de São Paulo, à sua presença no cenário cultural da cidade – tendo crescido entre a Pompeia e o Bom Retiro, o desenvolvimento de sua visão como artista.
Kouts é neta de imigrantes gregos, os quatro avós tendo nascido na Grécia, mas se conhecido já no Brasil. Essas origens também marcam suas sensibilidades artísticas e repertório visual, desde a infância, quando as idas à Igreja Ortodoxa Grega a aproximou das referências visuais bizantinas. São as tensões entre essas referências mais clássicas e seu dia a dia como uma jovem artista na maior metrópole do Brasil que informam muito de sua produção, o que ela define como
“um exercício de questões que se repetem muitas vezes, sobre como trazer […] um passado de uma Grécia lá atrás, de fotos que eu vi, com um repertório super atual de referências à internet e eu estou aqui no Brasil, sabe? Como que tudo isso se junta? Acho que meu trabalho acaba sendo resultado disso.”
De fato, a contemporaneidade está muito presente no trabalho da artista. A artista destaca, por exemplo, a preocupação humana com a obsolescência, e a busca pela memória e pela nostalgia em nossa interação com a tecnologia. Uma de suas obras, nesse sentido, foi uma pergunta ao hoje falecido “Yahoo Respostas”, site onde pessoas podiam tirar as mais diversas dúvidas, sendo respondidos pela própria comunidade. Ao saber do anúncio do fim do portal, Nicole criou uma conta e fez a seguinte postagem: “Não pensei que o Yahoo Respostas iria acabar, perdi a chance. Agora quero perguntar tudo.”, as respostas que obteve da comunidade do site em seu último ano de vida são, hoje, o que compõe a obra intitulada “Como perguntar tudo?”. De certa forma, o site ganha uma segunda vida, fala com um novo público, amplia o diálogo, tudo através do trabalho de Kouts.
Uma das surpresas de nossa entrevista foi a forma como a artista cria. Para ela, seu trabalho é bastante estruturado, intencional. Ainda que o resultado carregue surpresas, Kouts afirmou que seleciona logo de início os temas que quer abordar, utilizando-se dos desenhos e escrita para elaborar suas obras. Esse processo não é, necessariamente, linear. Algumas coisas, como ela demonstra ao me mostrar seu caderno de ideias, começam anos antes de atingirem seu formato final, muitas vezes apenas com pequenas ideias, imagens, palavras que vão se completando com outras inspirações e motivos que vão surgindo com o passar do tempo, tomando forma. Seus próprios trabalhos viajam no tempo, sendo produto de múltiplos diferentes momentos da vida da artista.

Caderno de ideias da artista. 15 de agosto de 2025.
Durante dois anos, Nicole Kouts viveu na Europa, onde pôde expor e elaborar sua arte de formas diferentes. Sua passagem pela Áustria, Dinamarca, Polônia e Grécia deixou marcas que, para a artista, demonstraram a capacidade de seus trabalhos de se comunicar com outros locais, e deixaram também marcas que reverberam, como ela mesma coloca, na artista e em sua arte. Na Grécia, em especial, Kouts teve que se deter na questão, “quem sou eu aqui?”, contrastando a Grécia não só com sua vivência no Brasil, mas também com a Grécia da memória de seus avós, a Grécia com a qual ela cresceu.
Essas reflexões a fizeram perceber como suas origens familiares se fazem presentes em seu trabalho de forma mais intensa do que ela mesma tinha pensado e ressaltaram, também, a brasilidade na personalidade da própria Nicole. Na Europa, o diálogo era entre diferentes temporalidades do mesmo espaço, e diferentes espaços da mesma temporalidade.
Agora de volta, Nicole Kouts traz muitas das referências que acumulou em seus anos fora, e vai continuando, através da arte, o vai e vém da conversa milenar que seu trabalho sempre propôs criar, continuando os laços e conexões tanto com os que vieram antes, quando com os que estão por vir.
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Quem escreveu:
Autor da Postagem: Yasmin Machado
Yasmin Machado é graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em História Social pela mesma instituição. Tem experiência em história, propaganda, memória, documentação, preservação digital e acervo. Hoje, é pesquisadora documentalista na Biblioteca de Artes Visuais da Pinacoteca de São Paulo. E-mail: yasmintrindmachado@gmail.com.
Autor da Postagem: Grupo de estudos À Luz de 120 anos
Grupo de pessoas pesquisadoras, artistas e entusiastas da história apresentou uma série de investigações sobre a trajetória da Pinacoteca, a partir de encontros presenciais e on-line, abertos ao público, entre abril e outubro de 2025. O grupo teve como foco a compreensão da evolução do patrimônio cultural da Pinacoteca, desde sua fundação até os dias atuais.