Entre março e novembro de 2025 a Pina realizou os encontros do Grupo de Estudos de 120 anos, oferecido para pessoas pesquisadoras, artistas e entusiastas da história da instituição. Este post é uma adaptação de um dos ensaios realizados. Vem ler!
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Conheci Patricia Baik – ou Pat Baik – em uma oficina de experimentações plásticas oferecida pela Pinacoteca aos seus funcionários. Em dez encontros, pude aprender muito com e artista, e soube, assim que o projeto À Luz de 120 anos: O nascimento de uma metrópole, a Pinacoteca e seu patrimônio cultural foi anunciado, que esta seria uma das entrevistas que eu faria. Se Pat aceitasse, no caso. Por sorte minha, o convite foi aceito.
Nos encontramos em seu ateliê, no último andar de um prédio no Bom Retiro, um espaço amplo e em que me senti imediatamente confortável. Sentada naquele ateliê, me vi cercada de váries Pat Baiks. Nas paredes, vários trabalhos mostravam a multiplicidade do eu de Baik; as vezes só, às vezes acompanhado de outras versões de si mesme. Um diálogo constante de versões. Já no início de nossa entrevista, Baik define seu trabalho como “um diário fictício, em que eu posso criar um lugar de entremeio, buscando também essa minha relação de ser coreano-brasileira e também transitando pelo lugar da não-binaridade, entendendo esses lugares no meio, em que você consegue construir umas novas versões de você e voltar você mesma como um outro personagem”.

Patricia Baik em seu ateliê. Foto disponibilizada pele artista.
E esses diversos personagens – que são, também, Pat – nos cercam, alguns observando nossa conversa, outros de costas para nós, e ainda outros muito ocupados com suas próprias tarefas para virar seu olhar para as duas pessoas que ali estão. O conjunto dessas obras também nos faz viajar no tempo, nas etapas da vida de Pat Baik, demarcadas, em sua obra, pelas mudanças em seu cabelo. Para e artista, esse é um traço fundamental, visto que, como diz “eu fico criando outras versões de mim que ficam fazendo companhia comigo. Então eu vou mostrando isso por meio de cabelos diferentes. Eu boto meu cabelo comprido, eu de cabelo médio, de cabelo curto, aí eu fico vendo também esses cabelos como símbolos de algumas etapas da vida, e também que eu sempre volto para elas, sabe? Porque o cabelo é um fio que cresce, mas você também pode cortar ou descolorir.”. Os cabelos marcam, então, ao mesmo tempo a passagem de tempo e a conversa entre as diversas temporalidades, se localizando nas interseções, nos encontros.
Muito de artista está também nos materiais e técnicas utilizados. Uma das primeiras coisas que Baik aponta são as molduras de alguns de seus trabalhos mais recentes. Uma mistura de molduras feitas por elu mesme e por um amigo, elas são inspiradas nos móveis que sua avó, que imigrou da Coreia para o Brasil, trouxe de seu país de origem. “A minha avó trouxe quase todos os armários que ela tinha, e meu tio guarda tudo.” diz Patricia Baik, “Todas as vezes que vou [na casa do tio], eu tento ficar catalogando esses ornamentos que aparecem e aí eu vou fazendo as minhas molduras de madeira em torno disso.”. A memória da família e da Coreia tomando outra vida nas mãos de Pat.
Esses motivos em madeira não são as únicas marcas de sua origem familiar nas obras. Baik me conta, por exemplo, de sua recente exploração da técnica do t’aenghwa, que é, como explica, semelhante à aquarela, mas pintada sobre a seda. A técnica, que conheceu pelo YouTube, permitiu novas formas de exploração da luz e da sombra, elementos muito importantes no trabalho de Pat. Como elu expressa, “o lugar que eu crio nessa minha produção é um lugar meio vazio, e esse lugar meio vazio, meio turvo, pode ser um entremeio”, o turvo fazendo pensar na solidão explorada pele artista, e, ao mesmo tempo, podendo trazer um aspecto de sonho à imagem, fazendo lembrar do sol ao passar pelas cortinas.
Muitas coisas não são compartilhadas organicamente, mas a vontade do conhecimento de novas técnicas e possibilidades levou uma nova geração à tecnologia em busca de elementos tradicionais, unindo-os à interpretação das preocupações da contemporaneidade. Para Pat, o uso do t’aenghwa é uma das formas utilizadas para expressar sua preocupação com os espaços entre um ponto e outro, entre a conexão e a solidão, entre a luz e a sombra, entre o dormir e o acordar, trazendo sua experiência contemporânea para conversar com técnicas e motivos que em muito a precedem.
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Quem escreveu:
Autor da Postagem: Yasmin Machado
Yasmin Machado é graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em História Social pela mesma instituição. Tem experiência em história, propaganda, memória, documentação, preservação digital e acervo. Hoje, é pesquisadora documentalista na Biblioteca de Artes Visuais da Pinacoteca de São Paulo. E-mail: yasmintrindmachado@gmail.com.
Autor da Postagem: Grupo de estudos À Luz de 120 anos
Grupo de pessoas pesquisadoras, artistas e entusiastas da história apresentou uma série de investigações sobre a trajetória da Pinacoteca, a partir de encontros presenciais e on-line, abertos ao público, entre abril e outubro de 2025. O grupo teve como foco a compreensão da evolução do patrimônio cultural da Pinacoteca, desde sua fundação até os dias atuais.