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Blog da Pina

Postagem: Os Andes vêm à Pinacoteca

Publicado em 23 de dezembro de 2025

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: Artistas e Exposições

Entre março e novembro de 2025 a Pina realizou os encontros do Grupo de Estudos de 120 anos, oferecido para pessoas pesquisadoras, artistas e entusiastas da história da instituição. Este post é uma adaptação de um dos ensaios realizados.  Vem ler!

Em julho de 2025, a Pinacoteca foi palco do Festival Latinitudes que, sob curadoria de Clarissa Ximenes e Ana Maria Maia, buscou explorar os diferentes conceitos e concepções das múltiplas identidades latinas, estabelecendo diálogo com a vizinhança que, como um bairro conhecido por sua diversidade cultural e forte presença imigrante, é lar de grande população andina.

Entre os muitos eventos ocorridos no festival, que durou dois dias, esteve o lançamento do minidoc De regreso: Avuelos y nietos del Bom Retiro, produzido pelo coletivo Libertat, e que propõe um nove olhar sobre a comunidade boliviana do bairro. Exatamente dois meses depois, dia 26 de agosto de 2025, José Giovanni, um dos produtores do documentário e membro do grupo Libertat, estava novamente na Pinacoteca, dessa vez sendo entrevistado como parte do projeto “À Luz de 120 anos: O nascimento de uma metrópole, a Pinacoteca e seu patrimônio cultural”, um grupo de estudos que visou explorar múltiplos aspectos da Pinacoteca, seus acervos e seus arredores.

Para José Giovanni, que prefere utilizar seu nome composto (“assim, bem latino, bem novela”, ele me diz), a presença em grandes instituições culturais como a Pinacoteca um dia pareceu uma realidade distante. Essa distância foi justamente um dos motivadores de sua jornada no mundo das artes. Ainda jovem, aos 14 anos, José Giovanni passou a integrar o projeto Guri, um programa de educação musical do estado de São Paulo, uma experiência que proporcionou a ele sua introdução à educação musical formal, e um novo olhar para seus arredores, para sua comunidade e para as limitações que pareciam existir à presença andina no cenário cultural formal de São Paulo.

Foi já como professor, dando aulas de música como parte do Programa Vocacional da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que ele passou a trazer as pautas “da migração, do ser indígena” à sua prática musical, inserindo, como o artista coloca,

“comecei a trabalhar uma perspectiva de música a partir do recorte da América Latina, daquilo que eu tinha conhecimento, eu ensinava música trazendo um pouco do contexto social dos países vizinhos, conciliando esses dois mundos que, no final das contas, foi sempre o que me chamou mais a atenção. Eu não sou só um músico, nem sou só uma pessoa tem conhecimento teórico da América Latina. Eu gosto de fundir essas coisas em prol dessas trocas.”

De fato, o trabalho de José Giovanni lida com as complexidades, as multiplicidades em todas as suas etapas. Mesmo o recorte da América Latina não é algo simples de se fazer. Para tal, o artista se dedica ao preenchimento de uma lacuna que identifica nas discussões que tinha no Brasil, na época, e estabelece seu recorte através das conexões latino-americanas.

Um de seus grandes incômodos, desde o princípio, foi a minimização do papel da diáspora boliviana no Brasil. Esta foi, como mesmo destaca, por muito tempo reduzida às questões trabalhistas, com o foco em seu papel na indústria têxtil, e nas condições de trabalho, gerando uma frustração por ser um posicionamento que, afirma José Giovanni, estava “reforçando estereótipos e estigmas”, que colocam a comunidade boliviana em um local de “problema”, sem possibilitar a visão dos bolivianos no Brasil para além desta condição, sem, ao mesmo tempo, apresentar soluções reais para a questão.

De regreso Avuelos y nietos del Bom Retiro (2025), resultado do projeto Ideias para o Bom Retiro, desenvolvido pela Casa do Povo em parceria com o Grupo La LIBERTAT, CC Andino Amazônico e Visto Permanente.

Para José Giovanni, o resgate da memória e ampliação do espaço das diásporas andinas no Brasil parte da valorização dos esforços das gerações que imigraram, e do uso das oportunidades a que tiveram acesso as gerações posteriores, como ele, que hoje vê seu trabalho adentrar as instituições culturais do país, sem, no entanto, deixar de lado a ocupação do espaço da rua. E ele – assim como o grupo Libertat – traz sua comunidade consigo em cada etapa. O valor pago pelas instituições pelas apresentações e intervenções do grupo servem, por exemplo, para transportar outros membros da diáspora até os eventos, ou até para financiar eventos dedicados especificamente à comunidade. Os espaços se multiplicam, mas as conexões permanecem, pois são a base de todo o trabalho.

A arte de José Giovanni é muito informada também por suas interações no bairro do Bom Retiro, onde integra o coletivo O Bom Retiro é o Mundo, um coletivo de pessoas que moram e/ou trabalham no bairro, e que destaca o caráter multicultural e diverso do local, com o objetivo de “valorizar sua história e o seu patrimônio para mobilizar e produzir a memória local de modo ativo”, como diz seu manifesto. Foi entre este grupo que o músico viu também a presença de outros membros andinos, com os traços indígenas que ele mesmo carrega, se fazendo ouvir e com que o músico visse a importância da presença nas ruas, da valorização dessa territorialidade. Para ele, a questão do território e da memória estão ligadas, uma vez que as vivências das comunidades em um local geram relações e conexões de afeto – entre pessoas e com o próprio local em si. Assim, como coloca José Giovanni,

“[os elementos do território] tem um significado afetivo de quem esteve lá e de quem está lá hoje. Então, é muito importante manter isso vivo para as pessoas que estão chegando ou que já foram, que passam por lá, que transitam”, destacando, portanto, a necessidade de “trabalhar esse lugar da história, da memória e do afeto.

A arte de José Giovanni, assim como seus projetos de arte-educação e seu ativismo, estão ancorados firmemente em sua comunidade, nas vivências dele mesmo e daqueles com os quais se conecta em seu dia a dia, e das memórias deixadas pelos que viveram antes. Hoje, ele traz não só seu trabalho às grandes instituições culturais brasileiras, mas também toda a sua comunidade, e a alma das ruas por ela ocupadas.

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Quem escreveu:

Autor da Postagem: Yasmin Machado

Yasmin Machado é graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em História Social pela mesma instituição. Tem experiência em história, propaganda, memória, documentação, preservação digital e acervo. Hoje, é pesquisadora documentalista na Biblioteca de Artes Visuais da Pinacoteca de São Paulo. E-mail: yasmintrindmachado@gmail.com.

Autor da Postagem: Grupo de estudos À Luz de 120 anos

Grupo de pessoas pesquisadoras, artistas e entusiastas da história apresentou uma série de investigações sobre a trajetória da Pinacoteca, a partir de encontros presenciais e on-line, abertos ao público, entre abril e outubro de 2025. O grupo teve como foco a compreensão da evolução do patrimônio cultural da Pinacoteca, desde sua fundação até os dias atuais.

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