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Postagem: Os desafios da conservação: suportes de Rosângela Rennó para além da fotografia

“Círculos viciosos, 472 casamentos cubanos” em exposição. Foto: Isabella Matheus
A coleção Roger Wright está completando 11 anos de comodato no acervo da Pinacoteca de São Paulo, ocupando três galerias do edifício Pina Luz com a exposição de longa duração “Instalações”. Entre as obras que compõem este recorte, destaca-se a escultura Círculos Viciosos, 472 casamentos Cubanos, da artista Rosângela Rennó – uma obra que desafia não apenas o olhar do espectador, mas também os protocolos da preservação e conservação.
Manter uma exposição de longa duração exige um cronograma rigoroso de vistorias e higienizações semanais, realizadas pela equipe de Conservação e Restauro. Quando uma obra permanece exposta por períodos prolongados, ela pode ser temporariamente retirada das salas expositivas para intervenções em laboratório, garantindo a integridade do suporte original.

“Círculos viciosos, 472 casamentos cubanos”, Rosângela Rennó, 1995. Coleção Roger Wright. Foto: Isabella Matheus.
No caso de Círculos Viciosos, o desafio reside na natureza distinta e na subversão funcional de seus componentes. A obra é constituída por negativos coloridos de 35 mm, adquiridos pela artista em 1994 em um estúdio estatal em Havana. Aqui, o negativo assume o papel de objeto principal da escultura, perdendo sua função original de matriz para tornar-se a própria matéria-prima tridimensional. O que torna a conservação complexa é o contato direto e prolongado entre materiais de diferentes naturezas químicas e físicas: o acetato de celulose do filme, o metal dos parafusos e arruelas, e o acrílico do suporte.
A delicadeza da intervenção
A montagem da obra remete a duas grandes filigranas de acetato, onde os negativos são dispostos de forma circular. Para a higienização completa, a equipe técnica realiza a abertura controlada da estrutura de acrílico.

Equipe de Restauro Pinacoteca de São Paulo.
O processo envolve duas etapas fundamentais: a higienização mecânica com o uso de sopradores de ar, para remover partículas de poeira sem tocar na emulsão fotográfica, e a higienização química com a aplicação de solventes específicos para material fílmico, destinados à remoção de sujidades aderidas que poderiam desestabilizar o acetato a longo prazo.
Este trabalho silencioso de bastidor é o que permite que a obra de Rennó continue a narrar suas histórias de memória e desaparecimento, mantendo o equilíbrio entre a degradação natural do tempo e a longevidade do acervo museológico.
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Quem escreveu:
Autor da Postagem: Lívia Lira
Lívia Lira é Restauradora Pleno de obras de arte em papel na Pinacoteca de São Paulo. É graduada em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas (USJT) e Licenciatura Plena (Belas Artes), com formação técnica em Conservação e Restauro pelo Centro Técnico Templo da Arte. Possui vasta experiência em conservação e restauração de obras de arte, com atuação em instituições, ateliês e coleções particulares. Sua prática profissional é voltada ao diagnóstico e à intervenção técnica para a preservação de acervos.