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Blog da Pina

Postagem: Por dentro do Acervo – Arte, viagens e formação artística: o Pensionato Artístico

Publicado em 11 de junho de 2026

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: Por dentro da Pina

Algumas obras da Pinacoteca guardam trajetórias de aprendizado que atravessaram oceanos. Conheça o Pensionato Artístico e descubra como a experiência internacional de artistas como Anita Malfatti ajudou a construir parte do acervo do museu.

A Pinacoteca de São Paulo é um museu de arte com acervo formado, majoritariamente, por obras de artistas brasileiros ou radicados no Brasil. Porém, algumas das obras da coleção fogem dessa denominação inicial e nos suscitam algumas questões.

A obra Femmes d’Alger dans leur appartement, por exemplo, é uma pintura bastante conhecida na história da arte, produzida por Eugène Delacroix, em 1834. Exposta e adquirida pelo Museu do Louvre no Salão de Paris no mesmo ano, ela retrata experiências vividas pelo artista durante sua viagem a Argel, capital da Argélia, em 1832. Existem várias versões dessa obra, inclusive realizadas pelo próprio Delacroix. Ela também inspirou outros artistas, como Picasso, que produziu pelo menos 15 interpretações da mesma cena. Curiosamente, uma cópia dessa pintura integra hoje o acervo da Pinacoteca.

Anita Malfatti,  Femmes d’Alger dans leur appartement [Mulheres de Argel em seu aposento], 1928. Cópia de obra homônima de Eugène Delacroix, 1834. (PINA00166) Foto: Isabella Matheus

Na sua origem, a Pinacoteca estava ligada a uma estrutura acadêmica de ensino artístico. Era fruto da estreita relação da instituição com o Liceu de Artes e Ofícios, com o qual dividia não apenas o espaço, mas também a administração. Para os jovens artistas daquele período, copiar obras consagradas era uma etapa essencial da formação. Nesse contexto, a coleção de obras da Pinacoteca não servia apenas à contemplação, ela funcionava como um verdadeiro laboratório de aprendizagem. Os artistas exercitavam o olhar e a técnica a partir das obras ali reunidas.

Entretanto, mais valioso ainda para a formação artística da época era o contato direto com os cânones da arte europeia. Afinal, em um período sem acesso amplo a reproduções, para ver de perto obras consagradas, era preciso estar no próprio continente europeu. Nesse encontro com museus, ateliês e academias, os artistas podiam não apenas observar, mas também assimilar técnicas, repertórios e valores estéticos considerados exemplares. Uma experiência que, por muito tempo, foi entendida como uma etapa quase que indispensável na formação do artista.

Parte do trabalho do Núcleo de Acervo Museológico consiste na revisão e digitalização das fichas catalográficas das obras. Material privilegiado sobre pesquisa em acervos, é possível encontrar, além de dados básicos como dimensões e técnicas, outras informações sobre procedência, antigos proprietários, histórico de exposições, transcrição de inscrições e muitos outros aspectos relevantes relacionados às obras. Ao consultar a ficha da obra Femmes d’Alger dans leur appartement, vemos que essa reprodução foi feita por Anita Malfatti e doada à Pinacoteca pela própria artista, em 1929. Essa doação foi uma contrapartida de seu período de Pensionato Artístico na Europa. Outras duas obras da artista, Les glaneuses (1928) e Tropical (1917), também entraram sob este mesmo contexto.

Ficha Catalográfica da obra PINA00166, produzida em 1978. Reprodução Acervo Museológico da Pinacoteca de São Paulo.

O que foi o Pensionato Artístico?

O Pensionato Artístico era uma bolsa de estudos ofertada pelo Governo do Estado. Seu objetivo era promover o intercâmbio e o aperfeiçoamento de jovens artistas paulistas. O programa previa uma estadia de cinco anos nos principais centros artísticos europeus. Sendo que a França era o destino mais frequente, mas muitos artistas também passavam por cidades italianas.

Embora a prática do pensionato existisse no estado de São Paulo desde meados de 1890, a Lei do Pensionato Artístico só foi regulamentada em 1912, pouco depois da implementação da Pinacoteca, ainda em 1911. Como forma de comprovar os estudos realizados no exterior, o pensionista deveria enviar, ao final do quinto ano, uma obra original de sua autoria para o acervo da Pinacoteca. Além disso, esperava-se o envio de duas cópias de “quadros célebres” estudados durante a estadia no exterior. Mesmo sem menção direta à Pinacoteca no regulamento referente a essas cópias, parte delas, assim como outras obras produzidas no contexto do pensionato, acabou sendo incorporada ao acervo da instituição.

O Pensionato Artístico na coleção da Pinacoteca

Além de Anita Malfatti, outros artistas também deixaram registros de seu período como pensionistas na coleção da Pinacoteca. Atualmente, o acervo da instituição preserva diversas obras vinculadas a esse primeiro momento de formação artística no exterior, reunindo nomes como Helena Ohashi, Túlio Mugnaini, Paulo do Valle Junior, Gastão Worms e os irmãos Dario e Mario Villares Babosa, entre outros.

O Pensionato Artístico e sua Comissão Fiscal foram dissolvidos em 1931, com a criação do Conselho de Orientação Artística, que, até hoje, é responsável pela aprovação de aquisições e doações ao acervo da Pinacoteca. Em 1936, foi criado o Prêmio de Aperfeiçoamento Artístico, que retomava, sob novos critérios, as funções do antigo Pensionato.

Preparando conservas, 1914. Cópia da pintura La Ménagère de Joseph Bail, 1897, óleo sobre tela, 136 x 111 cm. Incorporada ao acervo, 1914 (PINA00133). Foto: Isabella Matheus.


Para conferir essas e outras obras que integram o acervo, acesse nossa base de dados online: Acervo Online!



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Quem escreveu:

Autor da Postagem: Beatriz Neves

Beatriz Neves é graduanda em História pela Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Atualmente, é auxiliar de pesquisa no Núcleo de Acervo Museológico da Pinacoteca de São Paulo, com experiência em catalogação, pesquisa e organização de acervos. Também trabalhou em centros de memória, desenvolvendo pesquisas em patrimônio histórico tombado e memória institucional.

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