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Blog da Pina

Postagem: Alice Yura e Rosângela Rennó: uma conversa sobre fotografia, memória e arquivo

Publicado em 04 de setembro de 2026

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: Artistas e Exposições

O bate-papo entre as artistas ampliou as questões centrais que atravessam a exposição de Yura na Pina Contemporânea. Veja como foi.

Em de agosto, Alice Yura, artista da exposição “Um ato fotográfico”, conversou com Rosângela Rennó, artista fundamental para a fotografia contemporânea brasileira e uma importante referência para a pesquisa de Alice.

O bate-papo aberto ao público, e mediado pelo curador Thierry Freitas, ampliou as questões centrais que atravessam a exposição em cartaz na Pina Contemporânea até o dia 13 de setembro. Os fios condutores dessa conversa foram os pontos de convergência e diferenciações entre a prática artística de Alice e de Rosângela: como duas gerações de artistas que trabalham com fotografia se relacionam com arquivos, imagens e histórias?

Rosângela Rennó, Alice Yura e Thierry Freitas | Divulgação Pinacoteca | Foto: Levi Fanan, 2026.

A exposição “Um ato fotográfico” é um recorte significativo da pesquisa que Alice Yura vem desenvolvendo desde 2022. A artista visual – que se auto domina nipo-caipira – investiga a relação entre arte e vida, abordando temas como memória, afeto, corpo e identidade. Foi durante sua graduação em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul que Alice teve seu primeiro contato com a obra de Rosângela Rennó, artista importante para sua formação, por quem, a partir daí, passou a nutrir grande admiração.

Há décadas Rennó se volta para arquivos e coleções. Seu trabalho discute a imagem e suas narrativas e é marcado pela apropriação de fotografias descartadas e encontradas em mercados de rua e antiquários, assim como pela investigação das relações entre memória e esquecimento. Para Rosângela Rennó, que tem um fascínio por arquivos e coleções ­, “(…) é sempre bom ver um projeto que visualmente é diferente de como eu encararia a mesma coisa.” – Rennó referindo-se ao trabalho de Yura.

Foto Yura: arquivo familiar e matéria de criação

Ao longo da conversa entre as artistas, ficou evidente que o prazer de contar histórias é um ponto de aproximação entre suas obras. Embora o trabalho de Alice esteja voltado à sua família, seu interesse não é necessariamente construir dados biográficos, como acontece na produção de Rennó.

Apesar disso, existe um circuito familiar em “Um ato fotográfico”. A própria exposição na Pina Contemporânea nasceu a partir de trabalhos do Foto Yura, uma empresa de fotografia da família paterna de Alice. De origem japonesa, sua família chegou ao Brasil em 1936 se instalando em Aparecida do Taboado (Mato Grosso) em 1950. Em 1958 a empresa é fundada pelos seu avô e tios, funcionando até 2025; era lá que as fotos eram reveladas, retratos 3×4 eram produzidos e memórias e momentos importantes eram registrados.

“Eu acho que foi uma maneira que essa família de imigrantes japoneses teve para poder se estabelecer (…). (…) Eles não só fotografavam as pessoas, mas também o desenvolvimento da própria cidade.” – Alice Yura

Vista exposição de Alice Yura, instalação “Meu pai, um estrangeiro”. Foto: Isabella Matheus, 2026.

Ao falar sobre essa perspectiva de pertencimento e deslocamento de identidades presentes na sua história pessoal, Alice comenta que seu pai viveu no Japão de 1992 a 2010, indo e vindo. Para a artista, a crise econômica e política pela qual Brasil passava no período afetou as relações de muitas famílias nipo-brasileiras.

Na instalação Meu pai, um estrangeiro, 2026, presente na exposição, podemos ver algumas das fotos que a artista recebia do pai ao longo do período em que viajava entre o Brasil e o Japão.

Visitante olhando instalação “Meu pai, um estrangeiro”, Alice Yura | Divulgação Pinacoteca | Foto: Levi Fanan, 2026.


Álbuns sob a mesa: a fotografia como experiência coletiva

No centro da Galeria Praça, ocupada pela exposição “Alice Yura: um ato fotográfico”, há uma mesa redonda com três álbuns de fotografias da família da artista, que podem ser manuseados e vistos pelos visitantes.

Levar os álbuns para dentro da exposição foi a forma que Yura encontrou para resgatar um momento coletivo: a ação de olhar álbuns de fotografia, contar e ouvir histórias.

“A gente vê pessoas aqui na exposição folheando… e ficam buscando pontos de contato entre as suas histórias e o que está narrado ali. Isso é muito bonito.”, disse Alice.

Visitantes olhando álbuns de fotografia na exposição “Alice Yura: um ato fotográfico” | divulgação Pinacoteca | Foto: Levi Fanan, 2026

Nesta mesma linha da conversa, Rosângela Rennó comenta que acha curioso que hoje em dia a fotografia perdeu a conexão com o índice (no sentido de que a imagem não mais se refere a realidade e hoje se presta apenas a circulação):

“Ninguém faz mais álbum, né? Isso é uma coisa que eu lamento profundamente. Tenho pensado também bastante nisso (…) acho que quando a gente se conecta com as imagens, percebe que de fato existe esse poder narrativo em todas elas. (…) O boom dos fotolivros é, para mim, a resposta imediata disso. Porque as pessoas sempre têm necessidade de encontrar a imagem impressa de alguma forma, em algum lugar.” – Rosângela Rennó

Quais são os corpos e rostos brasileiros?

A pesquisa de Alice Yura também propõe um olhar sobre a construção das imagens que temos do Brasil e dos corpos que reconhecemos como brasileiros.

Em “Um ato fotográfico”, Yura gostaria que os visitantes pudessem sair da mostra com uma noção mais ampliada do que é o Brasil. Para a artista, construímos imagens muito específicas para representar o corpo do brasileiro, assim como elegemos determinados lugares para definir aquilo que entendemos como brasilidade.

Yura diz que estamos presos em uma noção de Brasil muito às margens. Por isso é importante quando a artista apresenta uma exposição como “Um ato fotográfico” para falar o que é esse país e que uma família de imigrantes japoneses, que trabalha com fotografia, parte sim da construção de Brasil.

Acesse fotos, vídeos, tour virtual e saiba mais sobre a exposição de Alice Yura aqui no site da Pinacoteca!

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